Thursday, December 14, 2006

1- Tatiana

Foi engraçado! Você pode achar estranho que eu já comece a história assim. Mas não tenho um início melhor.

Eu estava no ônibus. Eu e a minha "adorável" namorada. Nesse dia, especialmente, ela reclamou da avó doente da hora que eu botei os pés na porta do colégio dela, até aquele instante no ônibus. Eu estava mais do que exausto. Palavra! Fiquei imaginando mil coisas, olhando bem pra "paisagem" que passava rápido pela janela, enquanto a Laurinha falava, falava.

Aí ela parou. Não sei dizer exatamente em que momento. É que quando olhar pela janela já não dava mais (estava um saco!), eu resolvi olhar o pessoal do ônibus. Aquelas coisas: quem usava sapatos novos, quem estava com as calças mais amassadas. Discretamente, quem tinha as pernas mais bonitas... até que uma garota fantástica sentou no banco ao lado, paralelo à cadeira que eu e Laurinha ocupávamos.

Você pode até achar, que fantástica, é uma palavra exagerada. Mas a verdade é que da hora em que a garota loira, dos cabelos longos e cacheados, pernas grossas na mini-saia sentou-se, eu não despreguei o olho. Por isso mesmo é que eu digo que não sei quando a Laurinha parou de falar, ou melhor, quando foi que ela percebeu meu encantamento.

A Laurinha tem um geniosinho, que Deus do Céu! Quando ela cisma com alguma coisa, sai de baixo! Ela futuca até descobrir ou ela explode em cima de você, sem um pingo de educação, e depois, pra compensar, (ou piorar) a vergonha que ela dá na gente, desata a chorar em alto e bom som, com direito a soluços estremecedores.

Pois é. Eu estava de olho na loirinha, sem nem ouvir a conversa da minha namorada, quando eu senti que a pessoa ao meu lado esticou o olho, ou melhor, a cara, o corpo todo para ver também...

A Laurinha claro!

O que eu fiz? A coisa mais louca do mundo! Como eu estava olhando a linda beldade do lado, resolvi dirigir-lhe a palavra, no primeiro assomo de inteligência que surgiu em minha mente para me tirar daquela enrascada.

Como eu tive coragem, eu não sei. Assim como também não sabia, nem podia prever, no que isso ia dar.

Eu disse:

- Oi, como vai o Fábio?

A gatinha olhou pra mim, primeiro espantada, depois, sem saber o que dizer. Eu compreendi perfeitamente a reação dela, mas era a minha única chance de conseguir descer do ônibus evitando uma explosão da Laurinha.

A minha reação foi rápida. Fiz a maior cara de desespero, pisquei um olho pedindo para ela cooperar com qualquer que fosse o plano que eu estava inventando e colocando em prática naquela hora.

A loirinha ficou mais assustada ainda e virou o rosto pro outro lado.

Ótimo, eu pensei. Agora eu tô frito mesmo!

A Laurinha já tava me puxando pela camisa, desconfiada, querendo entender a situação.

- Rodrigo, o que...

Eu tinha que apelar. Cutuquei o joelho da loira, literalmente desesperado.

- Você não é a namorada do Fábio? O Fábio que estudou comigo no segundo ano?

A esta altura, a garota finalmente percebeu o meu desespero, e leu muito bem a frase estampada em meu rosto: "Por favor, diga que sim!..."

Ela olhou pra Laurinha e deve ter visto uma coisa muito feia no rosto dela, porque resolveu cooperar.

- Ah, claro! Então você é o...

- Rodrigo! Eu completei imediatamente, com um sorriso que vinha de ponta a ponta na minha boca, aliviado.

- Ah... ela repetiu, sem saber o que dizer mais.

- O Fábio, como vai? Já fez o vestibular?

- Ele...

Eu balancei a cabeça discretamente e ela completou:

- Ele fez sim. Medicina. Foi...

- No ano passado! - Completei. Eu tinha que dar uma ordem naquela história ou a Laurinha ia sacar tudo.

- Isso mesmo. Eu nem me lembrava mais de você...

- É. - Eu nunca deixava ela terminar uma frase. - A gente se viu poucas vezes. Você aparecia muito pouco lá no colégio.

- Você também fez vestibular? Ela me perguntou, aparentemente, bastante interessada. E eu vibrei.

"Isso, menina! Está se saindo muito bem!"

- Eu estou repetindo o terceiro ano. – Respondi, meio sem graça, e já acrescentando minhas desculpas. - Sabe como é... A matemática sempre me deixou na mão.

- Ah, que pena!

Eu percebi que no fundo, ela estava era com vontade de rir. Mas agora eu estava tranqüilo. Comecei a relaxar um pouco mais e a desfrutar da conversa com aquela gata maravilhosa que eu estava conhecendo de maneira tão inesperada. Já não estava nem aí pra Laurinha. Ela que se agüentasse. A loirinha era uma conhecida, namorada de um amigo imaginário chamado Fábio, que estudara comigo de mentirinha há dois anos atrás.

Aí, depois de um bom papo, eu descobri que não sabia o nome dela. Resolvi perguntar discretamente.

- Engraçado, comecei. Eu aqui conversando com você esse tempo todo, tentando me lembrar do seu nome. O Fábio te chamava de...?

- Tinha - ela completou sem muita convicção.

Detestei o nome e deixei que ela percebesse isso com uma careta. Agora que queria que ela me dissesse a verdade e não que inventasse histórias!

- Ah, claro! Agora me lembro. Mas o seu nome mesmo é...?

- Tatiana.

Sorri agradecido. Eu ia descer no próximo ponto. A Laurinha até me cutucou. Aí eu perguntei o número do telefone do tal Fábio. E ela, percebeu que na verdade, eu estava pedindo o número do telefone dela. Sorriu com um pouco de malícia e arrancou um pedaço da folha do caderno. Anotou o número com uma letra bem redonda e me entregou o pedaço de papel.

A Laurinha já estava ficando vermelha. Eu agradeci a gentileza da moça, disse um "até logo, abraço no Fábio!", e desci do ônibus puxado pela Laurinha.

- Você tava jogando charme pra cima daquela piranha, né Rô?

- Que é isso, Laurinha? Eu disse com a maior cara de espanto, tentando abraçá-la. Você não ouviu a conversa? É a namorada do Fábio, meu grande amigo. Eu nunca te falei dele não?

- Não! Nunca falou não.

- Que cabeça a minha! O cara é um amigão...

E eu fui falando do tal Fábio até chegar na porta da casa dela. Mas ela continuou com raiva. Eu já falei que ela é assim...

Eu arrumei uma desculpa para ir logo embora. Disse que minha mãe tava me esperando, que eu já tinha passado o dia fora de casa, e depois eu ligava. Ela balançou a cabeça dizendo que sim, meio chateada e na hora de me despedir, tentou armar um barraco, ainda não convencida de que falava a verdade. A Laurinha tem detector de mentiras, principalmente no que se refer à minha pessoa. Tive que ir embora em dois segundos e sei que ela ficou enfezada lá no portão, querendo me xingar alto.

Eu não estava nem aí. A Laurinha, eu já conheço e já sei lidar com ela. Na minha cabeça, àquela hora, eu só via a loirinha com aquele olhar de malícia, sorrindo. Gata esperta, entendeu perfeitamente as entrelinhas da situação. Botei a mão no bolso e peguei o pedaço de papel com o número do telefone. Será que o nome dela é mesmo Tatiana? Vi um orelhão ali perto. Fui lá, decidido a descobrir tudo.

Disquei o número e esperei três toques. Na quarta chamada, uma voz masculina, muito grossa por sinal, atendeu:

- Delegacia de Polícia, 13º Distrito, boa tarde?

Eu engasguei. Conferi rapidamente o número do papel com o que eu tinha discado. Estava correto. O homem ao telefone continuou gritando: alô! alô! Eu desliguei, decepcionado, magoado, ferido. Tudo não passava de uma farsa... pura ilusão!

Aí eu me dei conta, que esperara demais da situação. Subitamente, entendi o olhar malicioso da tal Tatiana. Fui para casa deprimido e me tranquei no quarto. Depois da janta, o telefone tocou. Era a Laurinha.

- Rô, tô ligando pra me desculpar por hoje à tarde. Desculpa, tá? Foi besteira minha. Bobagem ter ciúme de você. Prometo que a gente nunca mais vai brigar, ta? Eu te amo, Rô!

Eu sorri e me dei conta, que apesar de sonhar com as Tatianas da vida, eu tinha uma Laurinha estourada e ciumenta, mas apaixonada de verdade por mim. O que eu queria mais da vida?

- Esquenta não, Laurinha. Eu disse emocionado. Você é a única mulher da minha vida. Eu também te amo...

Pela primeira vez no nosso namoro, falei de peito aberto pra Laurinha. Até eu fiquei espantado. Aí eu ouvi aquele choro peculiar da Laurinha emocionada.

Ela é assim mesmo, pensei.



** 1997 **

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