Thursday, December 14, 2006

2-Presente de aniversário

Enitella entrou na sala. Olhou, sorriu para todos e descobriu Henrique no meio da roda. Sorriu para ele. Um sorriso franco, carinhoso, e que, associado ao olhar, tinha um "quê" de malícia.

- Oi, Rique!

- Oi, respondeu ele tímido.

- Quero falar com você.

Ele pediu licença e saiu da sala acompanhado da garota.

- Quem foi que lhe contou? Perguntou ele curioso.

- Foi a minha memória. Resolveu funcionar...

A garota respondeu de um jeito faceiro, puxou-o pela mão e levou-o para a varanda da casa. Henrique virou-se e olhou para ela. Tinha um olhar carinhoso apesar da mágoa. Ela sorriu embaraçada e não conseguiu dizer mais nada. Parecia que todas as palavras que havia ensaiado para dizer naquele momento, morreram em sua garganta. Henrique continuou ali, perto dela, olhando-a com um sorriso preso nos lábios. Mas não disse nada. Por fim, ela quebrou o silêncio.

- Rique, desculpa eu não ter nenhum presente pra te dar agora... não foi esquecimento, é que a minha cabeça estava... estava cheia de problemas e ...

- Não precisa dar explicações, disse Henrique encarando-a subitamente. Só o fato de você ter vindo, e estar aqui agora...pra mim é o bastante. Sei que está com problemas.

Ele sorriu tranqüilo e tudo que Enitella pôde fazer, foi ficar olhando para ele, como se pela primeira vez estivesse se dando conta, do quanto ele era realmente lindo e maravilhoso! Ele sabia cativar as pessoas com um simples olhar ou sorriso.

Ela sabia que ele a amava e não podia negar que o mesmo estava acontecendo com ela agora. Pela manhã, estiveram num clube. Henrique lhe perguntara alguma coisa de que não se lembrava no momento e ela descontou todos os seu problemas e a revolta que sentia, na resposta estúpida que lhe dera.

Ele não respondera nada. Compreendia que a namorada tinha razões suficientes para estar com raiva. A razão, todos conheciam, era a morte do pai, seis meses atrás. Ela precisava de apoio e isso ele dava sempre que podia.

Enitella era uma garota adorável. Combinava com Henrique. Tinha um jeito infantil de falar, e seus lindos olhos castanhos e o clássico contorno de seus lábios róseos, a tornavam uma garota simples e bonita.

Mas para ela, fora demasiado os problemas que lhe sobrevieram e ela não aceitava a morte do pai. Procurava agir com naturalidade e tentava dividir suas dúvidas e incertezas com Henrique e os amigos mais chegados.

O rapaz, por sua vez, tirava boa parte de seu tempo disponível para ficar com a namorada e, nesse tempo, conversava com ela, a apoiava, dava conselhos e o máximo de carinho que podia oferecer.

Enitella, recebia toda essa sintonia e agradecia a Deus pela existência do rapaz.

Os dois estavam na varanda e era o aniversário de Henrique. Os olhos de Enitella brilhavam com uma intensidade diferente aquela noite. Ela havia encontrado algo e Henrique estava curioso para saber.

- Vamos, lá! Disse ele. Alguma novidade?

Ela sorriu e olhou-o com uma ternura que ele nunca vira brilhar em seus lindos olhos.

- Ah, Rique... um dia eu te disse que era um farrapo, que a vida era uma porcaria, e uma porção de coisas ruins. Hoje pela manhã fui tão estúpida com você... e quero te pedir perdão, amor. A novidade, boa, é que consegui me libertar desse sofrimento que me perseguia. Pela primeira vez na vida sinto uma felicidade imensa em meu coração. Rique, agora eu sinto que amo a Deus, amo os meus amigos... e amo você - ela fez uma pausa - como nunca pensei que um dia pudesse amar alguém. Te amo muito, de verdade!

Henrique fitou-a por um instante. Viu a verdade refletida nos olhos dela. Repetiu a mesma frase, com a voz serena, cheia de sinceridade.

- Eu também te amo, Eny. Como nunca amei ninguém em toda a minha vida!

Disse isso, olhando-a com muito carinho, aproximando seu rosto do dela. Os lábios se encontraram suavemente.

Foi um instante de amor que se tornou eterno. Um dia, olhando para trás, os dois puderam reviver a imensa alegria que os envolveu naquele momento, quando Enitella finalmente decidiu olhar para a frente e esquecer os traumas do passado.



**1995**

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