Thursday, December 14, 2006

3- O Retrato

Lígia abriu a gavetinha velha e pôs-se a remexer rapidamente, uma porção de papéis soltos. Suas mãos ágeis pararam no mesmo instante, ao avistar uma pequena foto. Era de um rapaz alto, magro, moreno-claro; olhos e cabelos castanhos.

O coração bateu um pouco mais forte e sua mente transportou-se para o passado, para o dia em que conheceu Carlinhos. Foi num dia lindo. A paisagem e o tempo não poderiam estar melhores. Um passeio na praça e o encontro inesperado. Uma pergunta faceira às suas costas, e ao virar-se, deu de cara com o par de olhos mais lindo que já vira.

- Oi, você é daqui? - o rapaz sorria.

- Sim, sou. - E Lígia sorriu também, desajeitada.

- Pode me informar onde fica a rua São Domingos?

- Ali do outro lado da praça. Sabe o número da casa?

- Sei, obrigado.

O rapaz sorriu novamente e saiu. Ela acompanhou-o com o olhar, até que ele sumiu de vista. "Que rapaz simpático", pensou. "E que olhos, e que sorriso ele tem!"

Passou uma semana. O sol estava querendo se pôr e Lígia despedia-se por ordem de chamada, de seus dez afilhados. Meninos e meninas a quem ela ensinava ao abc, na Escolinha do Trem.

O último deles se foi, a jovem professora pegou os livros e as cartilhas de ensino, e saiu. À porta da escolinha, aguardava-lhe uma surpresa. Havia um rapaz sentado na calçada conversando com um amigo. Ela reconheceu-o. Ele também.

- Olá! - Disse o rapaz. - Você é aquela garota que me informou onde era a rua São domingos?

- Sou sim - confirmou Lígia.

- É um prazer reencontrá-la.

- O meu também.

Ficaram em silêncio por uns minutos. Depois ele falou meio tímido.

- Ainda não sei o seu nome.

- É Lígia. E o seu?

- Carlos.

- Você... não é daqui, acertei?

- Acertou. Moro na cidade. E você? Em qual rua mora?

- A da mercearia Barros. Todos conhecem. Meu pai é o dono.

A conversa continuou por mais uns minutos. E o namoro começou assim: encontros e surpresas, depois o pedido final

Lígia contava dezesseis anos. Carlinhos era o seu primeiro namorado. O seu primeiro amor. A família recebia bem o namorado de Lígia, por ser da cidade, e possuir um bom emprego. Lígia o admirava pelo jeito gentil, calmo e carinhoso de ser. Apesar de ser da cidade, Carlos era o tipo de rapaz que adorava o campo e a tranqüilidade.

Três anos se passaram. Apareceu na cidadezinha um homem de trinta e sete anos, viúvo, dono de uma enorme fazenda, e de vários negócios. O pai de Lígia, intencionando fazer um maior negócio comercial, hospedou-o em sua casa, enquanto via o modo como se desenrolavam seus planos.

Lígia não gostou do jeito de seu Mário, o fazendeiro. E desgostou-se mais ainda, ao ver que os olhos do fazendeiro brilhavam quando a viam.

Foi numa tarde, em conversa com seus pais sobre o assunto, que Lígia sofreu uma decepção.

- Lígia, minha filha.- falou-lhe o pai - o Sr. Mário e eu estamos acertando um negócio. Ele me pediu a sua mão em casamento. Eu e sua mãe estamos à favor. Assim, você poderá deixar de lecionar para estas crianças de nossa cidadezinha, e passar a ser dona de uma grande riqueza.

Lígia ficou sem fala. Ora, seus pais haviam esquecido de que ela já estava quase noiva de Carlinhos?

- Mas, pai. E o Carlinhos?

- Ora, você ainda pensa em se casar com esse rapaz, depois do tesouro que lhe caiu nas mãos, menina? - a voz de seu pai reboou pela casa.

- Papai, eu amo o Carlinhos... - Lígia tentou explicar.

- Minha filha, esse rapaz não passa de um bobo de vinte e três anos. O seu Mário é um homem experiente e rico. Vai se casar com ele! Pelo seu bem. E trate de dispensar o seu outro pretendente!

- Nunca, papai, nunca! - Lígia chorava feito louca. Já vira isso acontecer com amigas e conhecidas suas, mas jamais pensou que poderia acontecer com ela. Já namorava Carlinhos há três anos...

- Papai, eu amo o Carlinhos!

- Cale-se! Vá para o seu quarto.

Lígia olhou para a mãe, tentando ser compreendida. Mas a pobre mulher já fora uma vítima e endurecera o coração.

O travesseiro ficou molhado de lágrimas. Escreveu um telegrama para Carlos, contando sua situação, pedindo que ele fizesse algo.

Carlos apareceu no outro dia, espantado com a notícia. Tentou convencer o pai de Lígia:

- Seu Barros, eu amo sua filha, sinceramente. Tenho boas condições na cidade, acabei de me formar, tenho emprego, posso oferecer uma vida dígna à sua filha...

- Escute, rapazinho. Esta situação já está decidida. Minha filha nasceu aqui, pertence ao campo, e vai se casar com um fazendeiro rico, porque é isso que ela merece. Você não passa de um garotinho mimado da cidade. Não vai se casar com minha filha, e pronto!

- Eu não aceito isso, sr. Barros. Amo sua filha, ela também me ama, e vamos nos casar. Não permitirei que o sr. humilhe sua própria filha dessa maneira, submetendo-a a um casamento forçado, sem amor.

- Pois tente impedir minha filha de obedecer às minhas ordens! Tente pra ver! E

fora daqui!

Carlos foi expulso da casa de sua amada, e proibido de voltar a procurá-la. Mas não se conformava. Sempre que podia, dava um jeito de encontrar-se com ela ás encondidas, enquanto pensavam numa solução rápida para se livrarem daquele problema inusitado. Pensaram em se casar logo, naquela mesma semana, numa igrejinha que ficava numa cidade próxima.

Mas no dia combinado para a fuga, Lígia despertou e soube da terrível notícia. Um acidente de moto havia matado Carlos. Testemunhas disseram ter ouvido tiros, antes de a moto capotar e cair na ribanceira.

A família do rapaz denunciou o comerciante, a polícia abriu inquérito, mas o crime foi encoberto. As investigações em torno do assassinato pararam. Nem o desvario de Lígia, que louca de dor, tentou contar a verdade, mas foi arrastada pelos pais para o quarto, e sedada rapidamente, conseguiu reabrir as investigações. A família do rapaz mudou-se inesperadamente para um outro estado. E tudo acabou para a jovem. Dois anos de luto.

- Lígia! Lígia, está doente? - Lígia levou um susto. Esquecera completamente o que estivera procurando na escrivaninha. Sua mãe estava parada na porta do quarto observando-a.

- Lígia, seu noivo está lhe esperando... o que faz com essa foto na mão?

- Essa foto... era a minha felicidade.

- Esqueça esse rapaz, Lígia! Coragem!

Lígia olhou sua mãe por uns instantes. No momento em que ela precisara de mais coragem para resistir, sua mãe calara-se. Mas não tinha do que se queixar. Nada mais lhe importava.

Uma súbita esperança iluminou seu rosto. Não poderia amar seu marido, era verdade. Mas poderia amar sua filha. Um dia seria mãe, teria uma filha linda e contaria a ela toda a história daquele retrato. A tradição maldita daquela cidade e de sua família seria quebrada. Sim, ensinaria sua filha a amar, lutar e casar-se por amor...

Lígia levantou-se lentamente e colocou a foto na escrivaninha.



** 1994 **

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