Thursday, December 14, 2006

4- Gêmeos

- E aí? Já pensou? Perguntou Daniel.

- Hum... Sara fez um pouco de charme.

- Ah, sem essa de fazer mistérios. Qual a resposta?

- Acho que vou dar uma chance a você... que tal um sim?

- Uau! Daniel a apertou num forte abraço.

Foi assim que começou o namoro. Erika, não esquecia. E agora, sozinha, sentada a um canto da sala de estar da casa de Maiara, sua amiga, nem se dava conta da animação da festa, tão imersa estava em seus pensamentos.

A música era contagiante e empolgava. Erika porém, pensava em Daniel e em sua suposta traição. Sabia que em breve ele estaria ali na festa, mas não queria vê-lo. Não agora, quando seus sentimentos ainda estavam confusos e quando uma parte dela recusava-se a acreditar ainda no fato.

Mas seus amigos eram persistentes. Maiara mais que qualquer um deles. Então viera à festa. Apesar de tudo, era provável que Daniel ainda nem suspeitasse de que ela já sabia de sua traição... ou tudo não passava de uma terrivel mentira? Quem dera! Um ano e meio de namoro estragado justamente agora, quando tudo ia às mil maravilhas! Não, sua mágoa não tinha limites! Amava Daniel, confiava tanto nele... jamais poderia esperar esse tipo de coisas da parte dele.

Através da janela ampla da sala, ela viu a picape vermelha de Daniel sendo estacionada. Pensou em sair imediatamente da sala, mas mudou de idéia. Achou que enfrentá-lo seria a melhor saída. Alguém visivelmente desinformado, passou por ela e soltou um comentário malicioso quando viu o rapaz saindo do carro.

- Eh... agora ela vai sorrir!

Mas o sorriso não iluminou o rosto de Erika. Antes um pesar a invadiu. Daniel estava tranqüilo como sempre, e parou um pouco à porta para cumprimentar um casal de amigos. Ele estava irresistivelmente lindo, vestindo uma calça social preta, e uma camisa de manga comprida da cor cinza. Parecia até provocação. Ela adorava quando ele vestia aquela combinação. Ficava muito mais atraente...

Mas antes que se deixasse levar por completo pela beleza do rapaz loiro de olhos azuis por quem ela se apaixonara há quase dois anos atrás, Erika desviou o olhar. Mas não foi por muito tempo. A presença do rapaz na varanda, parecia um ímã, que atraía seu olhar. Ela voltou sua atenção para a porta principal da sala, bem na hora em que ele entrava. Mal a avistou, o rosto dele irradiou um sorriso de satisfação e com a mesma naturalidade de sempre, ele dirigiu-se até ela, no sofá.

- Por que não me ligou hoje? Ele perguntou abaixando-se para beijá-la. Mas ela desviou o rosto.

Daniel franziu a testa preocupado.

- Algum problema?

Erika sorriu com sarcasmo. Não conseguia evitar a ironia.

- Eu liguei pra você. Não sabia se você viria hoje, e sua mãe me falou que você já havia saído... Ele falou como se ainda não estivesse entendendo a atitude da namorada. Problemas no trabalho hoje?

"Sim eu estou com um tremendo problema hoje, e ele se resume numa só palavra: Você!" Erika teve vontade de gritar na cara dele.

Mas quando o fitou nos olhos, percebeu que ele parecia sincero e confuso também.

- Se você está chateada com alguma coisa e quiser conversar... podemos sair daqui, ou ficar e curtir a festa, sei lá! Ele sorriu um pouco constrangido e acariciou de leve o cabelo dela.

- Você realmente não faz idéia do meu problema?

Erika não agüentou mais e encarou-o séria. A pergunta dançando em seus olhos. O rapaz olhou-a surpreso. Os olhos dela refletiam uma mágoa que Daniel nunca tinha visto neles, nem mesmo nas pequenas brigas que aconteciam de vez em quando entre os dois.

- Daniel, me faz um favor? Vamos lá fora um pouco. Preciso falar sério com você.

Ele assentiu com a cabeça e seguiu-a até a varanda.

- Qual o problema? Ele perguntou assim que chegaram perto de um dos muros baixos da casa.

- O problema? Ironizou Erika. Quer saber mesmo? É você!

Daniel olhou para ela chocado.

- Eu?! Ele levou as duas mãos ao peito, como uma criança que tenta se defender de uma provável injustiça.

- É, você! E não me venha com essa carinha, Daniel! Vamos, explique-se!

Erika cruzou os braços com indignação e ficou aguardando a torrente de desculpas.

Mas Daniel permaneceu em silêncio por um instante, olhando para ela, como se estivesse tentando entender a situação.

- Hã... eu não estou conseguindo me lembrar de nada que possa ter feito para deixá-la assim. Francamente eu...

Sem palavras, agora foi a vez do rapaz cruzar os braços. Ele fixou os olhos nela e percebeu toda a raiva que emanava do corpo dela. Ela estava nervosa, e o pior é que ele não conseguia atinar sobre o verdadeiro motivo que a levara a ficar naquele estado.

- Erika, seja lá o que for, é melhor você me explicar porque nesse momento eu é que não estou entendendo nada!

- Mas Daniel, choramingou Erika. Como assim, você não está entendendo nada? Não precisa fingir. A Mirna me contou tudo. Não precisa negar nada! Eu só queria ouvir a verdade de você mesmo...

Ela disse o final da frase em voz baixa. Em seguida mordeu os lábios, nervosa e encarou o namorado com coragem. "E se isso tudo realmente não passar de uma grande mentira?!"

Daniel ficou sério e aproximou-se mais.

- O que foi que a Mirna te contou? Porque a mim não disseram nada, e eu não...

Erika começou a ficar perplexa. Ora bolas! Haveria mesmo um grande engano nisso tudo, ou o quê?

- Ok. Erika pôs as mãos na cintura e encarou-o mais uma vez. Onde você estava na noite de sábado passado?

- Sábado...? Em casa. E bastante gripado se você não lembra. Eu liguei pra você. Eu tava mal pra caramba!

- Mas que droga, Daniel! E por que a Mirna me garantiu que você estava na festa da Liliane aos beijos com uma garota novata, que ninguém conhecia?

- Eu?! Ela tá louca!...

- Bom, isso nós podemos descobrir agora. Porque ela está aqui, e você poderá dizer-lhe isso na cara dela!

Havia um brilho de desafio no olhar de Erika.

Daniel ficou sem fala um segundo, e Erika percebeu que ele estava começando a ficar vermelho. Era evidente que estava ficando irritado. Mas antes que dissesse qualquer palavra irada, seus lábios foram se abrindo num sorriso. Em pouco tempo, ele estava quase gargalhando.

- Que maravilha! Ele murmurou entre risos. O Deivisson tinha que fazer isso

comigo!

Ele passou as mãos pelo cabelo loiro e olhou para a namorada com um certo brilho malicioso.

- É sempre bom saber que a garota que a gente ama consegue dar ouvidos assim a qualquer fofoquinha... Gostei de saber que posso contar com você, acreditar plenamente na sua confiança em mim...

Erika começou a sentir-se incomodada. Ele estava blefando. Queria fazê-la sentir-se culpada antes de admitir que o verdadeiro culpado era ele mesmo. Não iria cair nessa armadilha.

Daniel percebeu isso e voltou a ficar sério.

- Você acha mesmo, que sou capaz de trair você, ou melhor, que sou tão burro à ponto de traí-la numa festa lotada de amigos nossos, pra todo mundo ver e então... negar na sua frente? Que espécie de cara você pensa que eu sou, hein?

Erika estava atônita. Agora era ela quem não entendia mais nada! Dissera apenas a verdade. E podia comprovar. Seus amigos confirmariam. Mirna passou por eles naquele exato momento. Os dois a agarraram ao mesmo tempo, o que provocou um susto na garota e uma vontade quase incontrolável de rir, por parte do casal. Erika disfarçou melhor que Daniel.

- Então, Mirna? A Erika me falou que você tem coisas interessantes a me contar.

- Desculpa, Daniel. Gosto muito de você, mas não admito canalhices e ainda mais assim, na cara de pau, replicou Mirna olhando sério para o rapaz.

- Ok! Daniel parecia ansioso para encerrar de uma vez aquele assunto. O cara que você viu semana passada na casa da Liliane, não fui eu. Posso até dizer o nome da garota para você, mas garanto para vocês duas que não era eu....

Ele tinha um sorriso zombeteiro no olhar enquanto encarava as duas garotas, passando o olhar de uma para a outra. Elas continuavam sem saber o que dizer.

- Quem estava na festa era o meu irmão gêmeo, o Deivisson. Não se lembra quando ele veio aqui há um ano atrás e comemorou com a gente nossos seis meses de namoro? Ele estava até com a Lígia, a mesma garota que a Mirna viu na festa. Não se lembra disso, Erika? Será que não passou pela sua cabeça?

Erika estava confusa.

- Mas é que...

- Eu falei que ele estava aqui a passeio no sábado passado, não falei? Ele só ficou três dias. Não pude ir à festa, mas dei o endereço pra ele.

Erika queria que um buraco se abrisse no chão e ela pudesse se jogar nele sumindo para sempre.

- Ai, Daniel... me perdoa! Erika cobriu o rosto com as mãos envergonhada.

O rapaz cruzou os braços e sorriu vitorioso. Seu olhar, apesar de terno e risonho, prescrutava a namorada. Mirna aproveitou para desculpar-se e sair de cena.

Erika tirou lentamente as mãos do rosto e devagar, caminhou até o namorado que continuava olhando-a com um sorriso fraco nos lábios. Sem se importar com o que as outras pessoas da festa iriam pensar, ela olhou firme nos olhos dele e abraçou-o pelo pescoço. O coração dela batia acelerado quando finalmente seus lábios se tocaram. O beijo foi terminando aos poucos, a custo, os dois sorrindo e sem vontade de parar de tocar os lábios um do outro.

- Com todo o meu amor, Daniel. Do fundo do meu coração, eu peço perdão. – Sussurrou Erika.

Daniel sorriu e tocou o queixo dela de leve, atraindo novamente o rosto dela na direção do seu e depositando um beijo terno em seus lábios.

- Está tudo bem, meu amor. Talvez eu tivesse feito o mesmo no seu lugar. O importante é que você nunca mais deve esquecer da semelhança que existe entre mim e meu irmão mais velho. E por favor, quando ele estiver aqui, só pense em me beijar quando você tiver certeza da pessoa a quem vai beijar, ou se eu tomar a iniciativa, ok?

- É? E o seu irmão nunca tentou se aproveitar da situação? Perguntou Erika com um tom de malícia.

- Não. Nós temos um código de ética que o impede e à mim, de infringirmos certas regras e desrespeitar as pessoas que mais amamos. Ele também é apaixonado pela namorada, sabia?

- Agora... me explica porque ele não contou a ninguém na festa que era o seu irmão gêmeo?

- Bem... nesse ponto... você me pegou! Vou ter uma conversinha com ele, Sabe que nem passou pela minha cabeça que isso poderia se transformar em confusão?

- Acho que vocês dois têm uma diferençazinha pequena no QI...

- Erika, acho que por hoje você já me irritou demais... não me provoque!

Ele interrompeu o assunto com um beijo e puxou-a pela mão sorrindo.

- A festa ainda tá rolando. Vamos curtir?

Erika fez que sim, balançando a cabeça e deixando-se levar pela mão do namorado, que ela sabia mais que tudo agora, era de fato, o grande amor da sua vida.

**1994**

3- O Retrato

Lígia abriu a gavetinha velha e pôs-se a remexer rapidamente, uma porção de papéis soltos. Suas mãos ágeis pararam no mesmo instante, ao avistar uma pequena foto. Era de um rapaz alto, magro, moreno-claro; olhos e cabelos castanhos.

O coração bateu um pouco mais forte e sua mente transportou-se para o passado, para o dia em que conheceu Carlinhos. Foi num dia lindo. A paisagem e o tempo não poderiam estar melhores. Um passeio na praça e o encontro inesperado. Uma pergunta faceira às suas costas, e ao virar-se, deu de cara com o par de olhos mais lindo que já vira.

- Oi, você é daqui? - o rapaz sorria.

- Sim, sou. - E Lígia sorriu também, desajeitada.

- Pode me informar onde fica a rua São Domingos?

- Ali do outro lado da praça. Sabe o número da casa?

- Sei, obrigado.

O rapaz sorriu novamente e saiu. Ela acompanhou-o com o olhar, até que ele sumiu de vista. "Que rapaz simpático", pensou. "E que olhos, e que sorriso ele tem!"

Passou uma semana. O sol estava querendo se pôr e Lígia despedia-se por ordem de chamada, de seus dez afilhados. Meninos e meninas a quem ela ensinava ao abc, na Escolinha do Trem.

O último deles se foi, a jovem professora pegou os livros e as cartilhas de ensino, e saiu. À porta da escolinha, aguardava-lhe uma surpresa. Havia um rapaz sentado na calçada conversando com um amigo. Ela reconheceu-o. Ele também.

- Olá! - Disse o rapaz. - Você é aquela garota que me informou onde era a rua São domingos?

- Sou sim - confirmou Lígia.

- É um prazer reencontrá-la.

- O meu também.

Ficaram em silêncio por uns minutos. Depois ele falou meio tímido.

- Ainda não sei o seu nome.

- É Lígia. E o seu?

- Carlos.

- Você... não é daqui, acertei?

- Acertou. Moro na cidade. E você? Em qual rua mora?

- A da mercearia Barros. Todos conhecem. Meu pai é o dono.

A conversa continuou por mais uns minutos. E o namoro começou assim: encontros e surpresas, depois o pedido final

Lígia contava dezesseis anos. Carlinhos era o seu primeiro namorado. O seu primeiro amor. A família recebia bem o namorado de Lígia, por ser da cidade, e possuir um bom emprego. Lígia o admirava pelo jeito gentil, calmo e carinhoso de ser. Apesar de ser da cidade, Carlos era o tipo de rapaz que adorava o campo e a tranqüilidade.

Três anos se passaram. Apareceu na cidadezinha um homem de trinta e sete anos, viúvo, dono de uma enorme fazenda, e de vários negócios. O pai de Lígia, intencionando fazer um maior negócio comercial, hospedou-o em sua casa, enquanto via o modo como se desenrolavam seus planos.

Lígia não gostou do jeito de seu Mário, o fazendeiro. E desgostou-se mais ainda, ao ver que os olhos do fazendeiro brilhavam quando a viam.

Foi numa tarde, em conversa com seus pais sobre o assunto, que Lígia sofreu uma decepção.

- Lígia, minha filha.- falou-lhe o pai - o Sr. Mário e eu estamos acertando um negócio. Ele me pediu a sua mão em casamento. Eu e sua mãe estamos à favor. Assim, você poderá deixar de lecionar para estas crianças de nossa cidadezinha, e passar a ser dona de uma grande riqueza.

Lígia ficou sem fala. Ora, seus pais haviam esquecido de que ela já estava quase noiva de Carlinhos?

- Mas, pai. E o Carlinhos?

- Ora, você ainda pensa em se casar com esse rapaz, depois do tesouro que lhe caiu nas mãos, menina? - a voz de seu pai reboou pela casa.

- Papai, eu amo o Carlinhos... - Lígia tentou explicar.

- Minha filha, esse rapaz não passa de um bobo de vinte e três anos. O seu Mário é um homem experiente e rico. Vai se casar com ele! Pelo seu bem. E trate de dispensar o seu outro pretendente!

- Nunca, papai, nunca! - Lígia chorava feito louca. Já vira isso acontecer com amigas e conhecidas suas, mas jamais pensou que poderia acontecer com ela. Já namorava Carlinhos há três anos...

- Papai, eu amo o Carlinhos!

- Cale-se! Vá para o seu quarto.

Lígia olhou para a mãe, tentando ser compreendida. Mas a pobre mulher já fora uma vítima e endurecera o coração.

O travesseiro ficou molhado de lágrimas. Escreveu um telegrama para Carlos, contando sua situação, pedindo que ele fizesse algo.

Carlos apareceu no outro dia, espantado com a notícia. Tentou convencer o pai de Lígia:

- Seu Barros, eu amo sua filha, sinceramente. Tenho boas condições na cidade, acabei de me formar, tenho emprego, posso oferecer uma vida dígna à sua filha...

- Escute, rapazinho. Esta situação já está decidida. Minha filha nasceu aqui, pertence ao campo, e vai se casar com um fazendeiro rico, porque é isso que ela merece. Você não passa de um garotinho mimado da cidade. Não vai se casar com minha filha, e pronto!

- Eu não aceito isso, sr. Barros. Amo sua filha, ela também me ama, e vamos nos casar. Não permitirei que o sr. humilhe sua própria filha dessa maneira, submetendo-a a um casamento forçado, sem amor.

- Pois tente impedir minha filha de obedecer às minhas ordens! Tente pra ver! E

fora daqui!

Carlos foi expulso da casa de sua amada, e proibido de voltar a procurá-la. Mas não se conformava. Sempre que podia, dava um jeito de encontrar-se com ela ás encondidas, enquanto pensavam numa solução rápida para se livrarem daquele problema inusitado. Pensaram em se casar logo, naquela mesma semana, numa igrejinha que ficava numa cidade próxima.

Mas no dia combinado para a fuga, Lígia despertou e soube da terrível notícia. Um acidente de moto havia matado Carlos. Testemunhas disseram ter ouvido tiros, antes de a moto capotar e cair na ribanceira.

A família do rapaz denunciou o comerciante, a polícia abriu inquérito, mas o crime foi encoberto. As investigações em torno do assassinato pararam. Nem o desvario de Lígia, que louca de dor, tentou contar a verdade, mas foi arrastada pelos pais para o quarto, e sedada rapidamente, conseguiu reabrir as investigações. A família do rapaz mudou-se inesperadamente para um outro estado. E tudo acabou para a jovem. Dois anos de luto.

- Lígia! Lígia, está doente? - Lígia levou um susto. Esquecera completamente o que estivera procurando na escrivaninha. Sua mãe estava parada na porta do quarto observando-a.

- Lígia, seu noivo está lhe esperando... o que faz com essa foto na mão?

- Essa foto... era a minha felicidade.

- Esqueça esse rapaz, Lígia! Coragem!

Lígia olhou sua mãe por uns instantes. No momento em que ela precisara de mais coragem para resistir, sua mãe calara-se. Mas não tinha do que se queixar. Nada mais lhe importava.

Uma súbita esperança iluminou seu rosto. Não poderia amar seu marido, era verdade. Mas poderia amar sua filha. Um dia seria mãe, teria uma filha linda e contaria a ela toda a história daquele retrato. A tradição maldita daquela cidade e de sua família seria quebrada. Sim, ensinaria sua filha a amar, lutar e casar-se por amor...

Lígia levantou-se lentamente e colocou a foto na escrivaninha.



** 1994 **

2-Presente de aniversário

Enitella entrou na sala. Olhou, sorriu para todos e descobriu Henrique no meio da roda. Sorriu para ele. Um sorriso franco, carinhoso, e que, associado ao olhar, tinha um "quê" de malícia.

- Oi, Rique!

- Oi, respondeu ele tímido.

- Quero falar com você.

Ele pediu licença e saiu da sala acompanhado da garota.

- Quem foi que lhe contou? Perguntou ele curioso.

- Foi a minha memória. Resolveu funcionar...

A garota respondeu de um jeito faceiro, puxou-o pela mão e levou-o para a varanda da casa. Henrique virou-se e olhou para ela. Tinha um olhar carinhoso apesar da mágoa. Ela sorriu embaraçada e não conseguiu dizer mais nada. Parecia que todas as palavras que havia ensaiado para dizer naquele momento, morreram em sua garganta. Henrique continuou ali, perto dela, olhando-a com um sorriso preso nos lábios. Mas não disse nada. Por fim, ela quebrou o silêncio.

- Rique, desculpa eu não ter nenhum presente pra te dar agora... não foi esquecimento, é que a minha cabeça estava... estava cheia de problemas e ...

- Não precisa dar explicações, disse Henrique encarando-a subitamente. Só o fato de você ter vindo, e estar aqui agora...pra mim é o bastante. Sei que está com problemas.

Ele sorriu tranqüilo e tudo que Enitella pôde fazer, foi ficar olhando para ele, como se pela primeira vez estivesse se dando conta, do quanto ele era realmente lindo e maravilhoso! Ele sabia cativar as pessoas com um simples olhar ou sorriso.

Ela sabia que ele a amava e não podia negar que o mesmo estava acontecendo com ela agora. Pela manhã, estiveram num clube. Henrique lhe perguntara alguma coisa de que não se lembrava no momento e ela descontou todos os seu problemas e a revolta que sentia, na resposta estúpida que lhe dera.

Ele não respondera nada. Compreendia que a namorada tinha razões suficientes para estar com raiva. A razão, todos conheciam, era a morte do pai, seis meses atrás. Ela precisava de apoio e isso ele dava sempre que podia.

Enitella era uma garota adorável. Combinava com Henrique. Tinha um jeito infantil de falar, e seus lindos olhos castanhos e o clássico contorno de seus lábios róseos, a tornavam uma garota simples e bonita.

Mas para ela, fora demasiado os problemas que lhe sobrevieram e ela não aceitava a morte do pai. Procurava agir com naturalidade e tentava dividir suas dúvidas e incertezas com Henrique e os amigos mais chegados.

O rapaz, por sua vez, tirava boa parte de seu tempo disponível para ficar com a namorada e, nesse tempo, conversava com ela, a apoiava, dava conselhos e o máximo de carinho que podia oferecer.

Enitella, recebia toda essa sintonia e agradecia a Deus pela existência do rapaz.

Os dois estavam na varanda e era o aniversário de Henrique. Os olhos de Enitella brilhavam com uma intensidade diferente aquela noite. Ela havia encontrado algo e Henrique estava curioso para saber.

- Vamos, lá! Disse ele. Alguma novidade?

Ela sorriu e olhou-o com uma ternura que ele nunca vira brilhar em seus lindos olhos.

- Ah, Rique... um dia eu te disse que era um farrapo, que a vida era uma porcaria, e uma porção de coisas ruins. Hoje pela manhã fui tão estúpida com você... e quero te pedir perdão, amor. A novidade, boa, é que consegui me libertar desse sofrimento que me perseguia. Pela primeira vez na vida sinto uma felicidade imensa em meu coração. Rique, agora eu sinto que amo a Deus, amo os meus amigos... e amo você - ela fez uma pausa - como nunca pensei que um dia pudesse amar alguém. Te amo muito, de verdade!

Henrique fitou-a por um instante. Viu a verdade refletida nos olhos dela. Repetiu a mesma frase, com a voz serena, cheia de sinceridade.

- Eu também te amo, Eny. Como nunca amei ninguém em toda a minha vida!

Disse isso, olhando-a com muito carinho, aproximando seu rosto do dela. Os lábios se encontraram suavemente.

Foi um instante de amor que se tornou eterno. Um dia, olhando para trás, os dois puderam reviver a imensa alegria que os envolveu naquele momento, quando Enitella finalmente decidiu olhar para a frente e esquecer os traumas do passado.



**1995**

1- Tatiana

Foi engraçado! Você pode achar estranho que eu já comece a história assim. Mas não tenho um início melhor.

Eu estava no ônibus. Eu e a minha "adorável" namorada. Nesse dia, especialmente, ela reclamou da avó doente da hora que eu botei os pés na porta do colégio dela, até aquele instante no ônibus. Eu estava mais do que exausto. Palavra! Fiquei imaginando mil coisas, olhando bem pra "paisagem" que passava rápido pela janela, enquanto a Laurinha falava, falava.

Aí ela parou. Não sei dizer exatamente em que momento. É que quando olhar pela janela já não dava mais (estava um saco!), eu resolvi olhar o pessoal do ônibus. Aquelas coisas: quem usava sapatos novos, quem estava com as calças mais amassadas. Discretamente, quem tinha as pernas mais bonitas... até que uma garota fantástica sentou no banco ao lado, paralelo à cadeira que eu e Laurinha ocupávamos.

Você pode até achar, que fantástica, é uma palavra exagerada. Mas a verdade é que da hora em que a garota loira, dos cabelos longos e cacheados, pernas grossas na mini-saia sentou-se, eu não despreguei o olho. Por isso mesmo é que eu digo que não sei quando a Laurinha parou de falar, ou melhor, quando foi que ela percebeu meu encantamento.

A Laurinha tem um geniosinho, que Deus do Céu! Quando ela cisma com alguma coisa, sai de baixo! Ela futuca até descobrir ou ela explode em cima de você, sem um pingo de educação, e depois, pra compensar, (ou piorar) a vergonha que ela dá na gente, desata a chorar em alto e bom som, com direito a soluços estremecedores.

Pois é. Eu estava de olho na loirinha, sem nem ouvir a conversa da minha namorada, quando eu senti que a pessoa ao meu lado esticou o olho, ou melhor, a cara, o corpo todo para ver também...

A Laurinha claro!

O que eu fiz? A coisa mais louca do mundo! Como eu estava olhando a linda beldade do lado, resolvi dirigir-lhe a palavra, no primeiro assomo de inteligência que surgiu em minha mente para me tirar daquela enrascada.

Como eu tive coragem, eu não sei. Assim como também não sabia, nem podia prever, no que isso ia dar.

Eu disse:

- Oi, como vai o Fábio?

A gatinha olhou pra mim, primeiro espantada, depois, sem saber o que dizer. Eu compreendi perfeitamente a reação dela, mas era a minha única chance de conseguir descer do ônibus evitando uma explosão da Laurinha.

A minha reação foi rápida. Fiz a maior cara de desespero, pisquei um olho pedindo para ela cooperar com qualquer que fosse o plano que eu estava inventando e colocando em prática naquela hora.

A loirinha ficou mais assustada ainda e virou o rosto pro outro lado.

Ótimo, eu pensei. Agora eu tô frito mesmo!

A Laurinha já tava me puxando pela camisa, desconfiada, querendo entender a situação.

- Rodrigo, o que...

Eu tinha que apelar. Cutuquei o joelho da loira, literalmente desesperado.

- Você não é a namorada do Fábio? O Fábio que estudou comigo no segundo ano?

A esta altura, a garota finalmente percebeu o meu desespero, e leu muito bem a frase estampada em meu rosto: "Por favor, diga que sim!..."

Ela olhou pra Laurinha e deve ter visto uma coisa muito feia no rosto dela, porque resolveu cooperar.

- Ah, claro! Então você é o...

- Rodrigo! Eu completei imediatamente, com um sorriso que vinha de ponta a ponta na minha boca, aliviado.

- Ah... ela repetiu, sem saber o que dizer mais.

- O Fábio, como vai? Já fez o vestibular?

- Ele...

Eu balancei a cabeça discretamente e ela completou:

- Ele fez sim. Medicina. Foi...

- No ano passado! - Completei. Eu tinha que dar uma ordem naquela história ou a Laurinha ia sacar tudo.

- Isso mesmo. Eu nem me lembrava mais de você...

- É. - Eu nunca deixava ela terminar uma frase. - A gente se viu poucas vezes. Você aparecia muito pouco lá no colégio.

- Você também fez vestibular? Ela me perguntou, aparentemente, bastante interessada. E eu vibrei.

"Isso, menina! Está se saindo muito bem!"

- Eu estou repetindo o terceiro ano. – Respondi, meio sem graça, e já acrescentando minhas desculpas. - Sabe como é... A matemática sempre me deixou na mão.

- Ah, que pena!

Eu percebi que no fundo, ela estava era com vontade de rir. Mas agora eu estava tranqüilo. Comecei a relaxar um pouco mais e a desfrutar da conversa com aquela gata maravilhosa que eu estava conhecendo de maneira tão inesperada. Já não estava nem aí pra Laurinha. Ela que se agüentasse. A loirinha era uma conhecida, namorada de um amigo imaginário chamado Fábio, que estudara comigo de mentirinha há dois anos atrás.

Aí, depois de um bom papo, eu descobri que não sabia o nome dela. Resolvi perguntar discretamente.

- Engraçado, comecei. Eu aqui conversando com você esse tempo todo, tentando me lembrar do seu nome. O Fábio te chamava de...?

- Tinha - ela completou sem muita convicção.

Detestei o nome e deixei que ela percebesse isso com uma careta. Agora que queria que ela me dissesse a verdade e não que inventasse histórias!

- Ah, claro! Agora me lembro. Mas o seu nome mesmo é...?

- Tatiana.

Sorri agradecido. Eu ia descer no próximo ponto. A Laurinha até me cutucou. Aí eu perguntei o número do telefone do tal Fábio. E ela, percebeu que na verdade, eu estava pedindo o número do telefone dela. Sorriu com um pouco de malícia e arrancou um pedaço da folha do caderno. Anotou o número com uma letra bem redonda e me entregou o pedaço de papel.

A Laurinha já estava ficando vermelha. Eu agradeci a gentileza da moça, disse um "até logo, abraço no Fábio!", e desci do ônibus puxado pela Laurinha.

- Você tava jogando charme pra cima daquela piranha, né Rô?

- Que é isso, Laurinha? Eu disse com a maior cara de espanto, tentando abraçá-la. Você não ouviu a conversa? É a namorada do Fábio, meu grande amigo. Eu nunca te falei dele não?

- Não! Nunca falou não.

- Que cabeça a minha! O cara é um amigão...

E eu fui falando do tal Fábio até chegar na porta da casa dela. Mas ela continuou com raiva. Eu já falei que ela é assim...

Eu arrumei uma desculpa para ir logo embora. Disse que minha mãe tava me esperando, que eu já tinha passado o dia fora de casa, e depois eu ligava. Ela balançou a cabeça dizendo que sim, meio chateada e na hora de me despedir, tentou armar um barraco, ainda não convencida de que falava a verdade. A Laurinha tem detector de mentiras, principalmente no que se refer à minha pessoa. Tive que ir embora em dois segundos e sei que ela ficou enfezada lá no portão, querendo me xingar alto.

Eu não estava nem aí. A Laurinha, eu já conheço e já sei lidar com ela. Na minha cabeça, àquela hora, eu só via a loirinha com aquele olhar de malícia, sorrindo. Gata esperta, entendeu perfeitamente as entrelinhas da situação. Botei a mão no bolso e peguei o pedaço de papel com o número do telefone. Será que o nome dela é mesmo Tatiana? Vi um orelhão ali perto. Fui lá, decidido a descobrir tudo.

Disquei o número e esperei três toques. Na quarta chamada, uma voz masculina, muito grossa por sinal, atendeu:

- Delegacia de Polícia, 13º Distrito, boa tarde?

Eu engasguei. Conferi rapidamente o número do papel com o que eu tinha discado. Estava correto. O homem ao telefone continuou gritando: alô! alô! Eu desliguei, decepcionado, magoado, ferido. Tudo não passava de uma farsa... pura ilusão!

Aí eu me dei conta, que esperara demais da situação. Subitamente, entendi o olhar malicioso da tal Tatiana. Fui para casa deprimido e me tranquei no quarto. Depois da janta, o telefone tocou. Era a Laurinha.

- Rô, tô ligando pra me desculpar por hoje à tarde. Desculpa, tá? Foi besteira minha. Bobagem ter ciúme de você. Prometo que a gente nunca mais vai brigar, ta? Eu te amo, Rô!

Eu sorri e me dei conta, que apesar de sonhar com as Tatianas da vida, eu tinha uma Laurinha estourada e ciumenta, mas apaixonada de verdade por mim. O que eu queria mais da vida?

- Esquenta não, Laurinha. Eu disse emocionado. Você é a única mulher da minha vida. Eu também te amo...

Pela primeira vez no nosso namoro, falei de peito aberto pra Laurinha. Até eu fiquei espantado. Aí eu ouvi aquele choro peculiar da Laurinha emocionada.

Ela é assim mesmo, pensei.



** 1997 **