Thursday, December 14, 2006

4- Gêmeos

- E aí? Já pensou? Perguntou Daniel.

- Hum... Sara fez um pouco de charme.

- Ah, sem essa de fazer mistérios. Qual a resposta?

- Acho que vou dar uma chance a você... que tal um sim?

- Uau! Daniel a apertou num forte abraço.

Foi assim que começou o namoro. Erika, não esquecia. E agora, sozinha, sentada a um canto da sala de estar da casa de Maiara, sua amiga, nem se dava conta da animação da festa, tão imersa estava em seus pensamentos.

A música era contagiante e empolgava. Erika porém, pensava em Daniel e em sua suposta traição. Sabia que em breve ele estaria ali na festa, mas não queria vê-lo. Não agora, quando seus sentimentos ainda estavam confusos e quando uma parte dela recusava-se a acreditar ainda no fato.

Mas seus amigos eram persistentes. Maiara mais que qualquer um deles. Então viera à festa. Apesar de tudo, era provável que Daniel ainda nem suspeitasse de que ela já sabia de sua traição... ou tudo não passava de uma terrivel mentira? Quem dera! Um ano e meio de namoro estragado justamente agora, quando tudo ia às mil maravilhas! Não, sua mágoa não tinha limites! Amava Daniel, confiava tanto nele... jamais poderia esperar esse tipo de coisas da parte dele.

Através da janela ampla da sala, ela viu a picape vermelha de Daniel sendo estacionada. Pensou em sair imediatamente da sala, mas mudou de idéia. Achou que enfrentá-lo seria a melhor saída. Alguém visivelmente desinformado, passou por ela e soltou um comentário malicioso quando viu o rapaz saindo do carro.

- Eh... agora ela vai sorrir!

Mas o sorriso não iluminou o rosto de Erika. Antes um pesar a invadiu. Daniel estava tranqüilo como sempre, e parou um pouco à porta para cumprimentar um casal de amigos. Ele estava irresistivelmente lindo, vestindo uma calça social preta, e uma camisa de manga comprida da cor cinza. Parecia até provocação. Ela adorava quando ele vestia aquela combinação. Ficava muito mais atraente...

Mas antes que se deixasse levar por completo pela beleza do rapaz loiro de olhos azuis por quem ela se apaixonara há quase dois anos atrás, Erika desviou o olhar. Mas não foi por muito tempo. A presença do rapaz na varanda, parecia um ímã, que atraía seu olhar. Ela voltou sua atenção para a porta principal da sala, bem na hora em que ele entrava. Mal a avistou, o rosto dele irradiou um sorriso de satisfação e com a mesma naturalidade de sempre, ele dirigiu-se até ela, no sofá.

- Por que não me ligou hoje? Ele perguntou abaixando-se para beijá-la. Mas ela desviou o rosto.

Daniel franziu a testa preocupado.

- Algum problema?

Erika sorriu com sarcasmo. Não conseguia evitar a ironia.

- Eu liguei pra você. Não sabia se você viria hoje, e sua mãe me falou que você já havia saído... Ele falou como se ainda não estivesse entendendo a atitude da namorada. Problemas no trabalho hoje?

"Sim eu estou com um tremendo problema hoje, e ele se resume numa só palavra: Você!" Erika teve vontade de gritar na cara dele.

Mas quando o fitou nos olhos, percebeu que ele parecia sincero e confuso também.

- Se você está chateada com alguma coisa e quiser conversar... podemos sair daqui, ou ficar e curtir a festa, sei lá! Ele sorriu um pouco constrangido e acariciou de leve o cabelo dela.

- Você realmente não faz idéia do meu problema?

Erika não agüentou mais e encarou-o séria. A pergunta dançando em seus olhos. O rapaz olhou-a surpreso. Os olhos dela refletiam uma mágoa que Daniel nunca tinha visto neles, nem mesmo nas pequenas brigas que aconteciam de vez em quando entre os dois.

- Daniel, me faz um favor? Vamos lá fora um pouco. Preciso falar sério com você.

Ele assentiu com a cabeça e seguiu-a até a varanda.

- Qual o problema? Ele perguntou assim que chegaram perto de um dos muros baixos da casa.

- O problema? Ironizou Erika. Quer saber mesmo? É você!

Daniel olhou para ela chocado.

- Eu?! Ele levou as duas mãos ao peito, como uma criança que tenta se defender de uma provável injustiça.

- É, você! E não me venha com essa carinha, Daniel! Vamos, explique-se!

Erika cruzou os braços com indignação e ficou aguardando a torrente de desculpas.

Mas Daniel permaneceu em silêncio por um instante, olhando para ela, como se estivesse tentando entender a situação.

- Hã... eu não estou conseguindo me lembrar de nada que possa ter feito para deixá-la assim. Francamente eu...

Sem palavras, agora foi a vez do rapaz cruzar os braços. Ele fixou os olhos nela e percebeu toda a raiva que emanava do corpo dela. Ela estava nervosa, e o pior é que ele não conseguia atinar sobre o verdadeiro motivo que a levara a ficar naquele estado.

- Erika, seja lá o que for, é melhor você me explicar porque nesse momento eu é que não estou entendendo nada!

- Mas Daniel, choramingou Erika. Como assim, você não está entendendo nada? Não precisa fingir. A Mirna me contou tudo. Não precisa negar nada! Eu só queria ouvir a verdade de você mesmo...

Ela disse o final da frase em voz baixa. Em seguida mordeu os lábios, nervosa e encarou o namorado com coragem. "E se isso tudo realmente não passar de uma grande mentira?!"

Daniel ficou sério e aproximou-se mais.

- O que foi que a Mirna te contou? Porque a mim não disseram nada, e eu não...

Erika começou a ficar perplexa. Ora bolas! Haveria mesmo um grande engano nisso tudo, ou o quê?

- Ok. Erika pôs as mãos na cintura e encarou-o mais uma vez. Onde você estava na noite de sábado passado?

- Sábado...? Em casa. E bastante gripado se você não lembra. Eu liguei pra você. Eu tava mal pra caramba!

- Mas que droga, Daniel! E por que a Mirna me garantiu que você estava na festa da Liliane aos beijos com uma garota novata, que ninguém conhecia?

- Eu?! Ela tá louca!...

- Bom, isso nós podemos descobrir agora. Porque ela está aqui, e você poderá dizer-lhe isso na cara dela!

Havia um brilho de desafio no olhar de Erika.

Daniel ficou sem fala um segundo, e Erika percebeu que ele estava começando a ficar vermelho. Era evidente que estava ficando irritado. Mas antes que dissesse qualquer palavra irada, seus lábios foram se abrindo num sorriso. Em pouco tempo, ele estava quase gargalhando.

- Que maravilha! Ele murmurou entre risos. O Deivisson tinha que fazer isso

comigo!

Ele passou as mãos pelo cabelo loiro e olhou para a namorada com um certo brilho malicioso.

- É sempre bom saber que a garota que a gente ama consegue dar ouvidos assim a qualquer fofoquinha... Gostei de saber que posso contar com você, acreditar plenamente na sua confiança em mim...

Erika começou a sentir-se incomodada. Ele estava blefando. Queria fazê-la sentir-se culpada antes de admitir que o verdadeiro culpado era ele mesmo. Não iria cair nessa armadilha.

Daniel percebeu isso e voltou a ficar sério.

- Você acha mesmo, que sou capaz de trair você, ou melhor, que sou tão burro à ponto de traí-la numa festa lotada de amigos nossos, pra todo mundo ver e então... negar na sua frente? Que espécie de cara você pensa que eu sou, hein?

Erika estava atônita. Agora era ela quem não entendia mais nada! Dissera apenas a verdade. E podia comprovar. Seus amigos confirmariam. Mirna passou por eles naquele exato momento. Os dois a agarraram ao mesmo tempo, o que provocou um susto na garota e uma vontade quase incontrolável de rir, por parte do casal. Erika disfarçou melhor que Daniel.

- Então, Mirna? A Erika me falou que você tem coisas interessantes a me contar.

- Desculpa, Daniel. Gosto muito de você, mas não admito canalhices e ainda mais assim, na cara de pau, replicou Mirna olhando sério para o rapaz.

- Ok! Daniel parecia ansioso para encerrar de uma vez aquele assunto. O cara que você viu semana passada na casa da Liliane, não fui eu. Posso até dizer o nome da garota para você, mas garanto para vocês duas que não era eu....

Ele tinha um sorriso zombeteiro no olhar enquanto encarava as duas garotas, passando o olhar de uma para a outra. Elas continuavam sem saber o que dizer.

- Quem estava na festa era o meu irmão gêmeo, o Deivisson. Não se lembra quando ele veio aqui há um ano atrás e comemorou com a gente nossos seis meses de namoro? Ele estava até com a Lígia, a mesma garota que a Mirna viu na festa. Não se lembra disso, Erika? Será que não passou pela sua cabeça?

Erika estava confusa.

- Mas é que...

- Eu falei que ele estava aqui a passeio no sábado passado, não falei? Ele só ficou três dias. Não pude ir à festa, mas dei o endereço pra ele.

Erika queria que um buraco se abrisse no chão e ela pudesse se jogar nele sumindo para sempre.

- Ai, Daniel... me perdoa! Erika cobriu o rosto com as mãos envergonhada.

O rapaz cruzou os braços e sorriu vitorioso. Seu olhar, apesar de terno e risonho, prescrutava a namorada. Mirna aproveitou para desculpar-se e sair de cena.

Erika tirou lentamente as mãos do rosto e devagar, caminhou até o namorado que continuava olhando-a com um sorriso fraco nos lábios. Sem se importar com o que as outras pessoas da festa iriam pensar, ela olhou firme nos olhos dele e abraçou-o pelo pescoço. O coração dela batia acelerado quando finalmente seus lábios se tocaram. O beijo foi terminando aos poucos, a custo, os dois sorrindo e sem vontade de parar de tocar os lábios um do outro.

- Com todo o meu amor, Daniel. Do fundo do meu coração, eu peço perdão. – Sussurrou Erika.

Daniel sorriu e tocou o queixo dela de leve, atraindo novamente o rosto dela na direção do seu e depositando um beijo terno em seus lábios.

- Está tudo bem, meu amor. Talvez eu tivesse feito o mesmo no seu lugar. O importante é que você nunca mais deve esquecer da semelhança que existe entre mim e meu irmão mais velho. E por favor, quando ele estiver aqui, só pense em me beijar quando você tiver certeza da pessoa a quem vai beijar, ou se eu tomar a iniciativa, ok?

- É? E o seu irmão nunca tentou se aproveitar da situação? Perguntou Erika com um tom de malícia.

- Não. Nós temos um código de ética que o impede e à mim, de infringirmos certas regras e desrespeitar as pessoas que mais amamos. Ele também é apaixonado pela namorada, sabia?

- Agora... me explica porque ele não contou a ninguém na festa que era o seu irmão gêmeo?

- Bem... nesse ponto... você me pegou! Vou ter uma conversinha com ele, Sabe que nem passou pela minha cabeça que isso poderia se transformar em confusão?

- Acho que vocês dois têm uma diferençazinha pequena no QI...

- Erika, acho que por hoje você já me irritou demais... não me provoque!

Ele interrompeu o assunto com um beijo e puxou-a pela mão sorrindo.

- A festa ainda tá rolando. Vamos curtir?

Erika fez que sim, balançando a cabeça e deixando-se levar pela mão do namorado, que ela sabia mais que tudo agora, era de fato, o grande amor da sua vida.

**1994**